sábado, 22 de novembro de 2014

UMA SENSÍVEL MÁQUINA QUÍMICA

Tive a oportunidade de conhecer mais de perto uma pessoa que lutou muito contra a dependência das drogas. Um rapaz de 26 anos que trabalhou comigo por três ocasiões diferentes. 

Sou extremamente seletivo quanto ao passado de quem trabalha comigo. Já barrei muita gente envolvida com crime ou com perfil suspeito. O dele não passaria pela minha primeira peneira, caso não conhecesse previamente sua história, e um pouco de sua origem e família.
Numa ocasião do ano passado, após uma tentativa de furto na empresa, ele se dirigiu com a gerente `a delegacia como testemunha do fato (o acusado posteriormente foi condenado). A delegada insistia em deter o meu funcionário como suspeito de envolvimento, tudo por causa de seu passado não ilibado pelos registros judiciais. `A época, ele cumpria condicional. Precisei acionar o advogado da empresa para interceder e liberar o rapaz. Eu tinha, e ainda tenho, a certeza de sua isenção no caso. E, no caso, a vítima era minha empresa.
O rapaz era um bom funcionário e muito querido por todos os colegas e superiores. Educado, prestativo e sempre, sempre mesmo, com um sorriso aberto de boa vontade com as pessoas.

Uma de suas funções atuais envolvia tarefa de confiança que não atribuo para qualquer um.

No ano passado, após o cumprimento de sua condicional, ele pareceu se libertar de um peso, saiu do emprego que tinha na empresa e voltou ao descontrole das drogas. Quase foi internado pela família, contra sua vontade. Na ocasião, o advogado da empresa atuou em seu favor, sem eu saber e sem cobrar nada dele.  

No primeiro semestre do ano ele se ofereceu ao trabalho na empresa novamente. Eu aguardei até setembro, quando solicitei ao seu pai um serviço em minha casa. Ele e o pai executaram por uma semana a tarefa. Pude perceber o seu equilíbrio e abri novamente as portas da empresa para o seu terceiro retorno.

Pude perceber que ele continuava eficiente e querido por todos. Notei também que ele estava mais envolvido com uma certa religião.

No sábado passado ele suicidou. Em casa e com uma corda de varal no pescoço. Perdeu a luta contra a força da dependência química, suponho. Não tenho condições de imaginar as razões e o limiar de uma decisão tão... tão máxima e absoluta.

Posso não ter razão, mas me atrevo a imaginar o quanto de desinformação pode influir nas decisões de uma máquina química que busca ajuda para deixar de desejar uma substância que seu ajudante condena tanto e a chama de capeta.

Pelo olhar evolutivo, somos filhos das estrelas. Somos química e ela somos nós. Controlá-la e moldá-la, um dia, foi papel da seleção evolutiva. Evoluímos ao ponto de sermos determinantes no ambiente e em nós mesmos. Somos, cada vez mais, uma máquina química sensível, artificialmente selecionada e com diversos "capetas" nos rondando.

Um pouco mais de informação, e menos capetização, poderia ajudar quem quer ajudar e, principalmente, quem precisa da ajuda.

Fico com a sensação de que faltei, de que podia ter feito algo a mais. Deve ser comum essa sensação.

Boa sorte garoto! Você deixou saudades...

2 comentários:

  1. Que encontrem, todos vocês próximos a ele, conforto e forças para continuar com aqueles que ainda estão por aqui.

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  2. Com certeza vc fez tudo q podia para ajudar amigo mas a cabeça do ser humano e muito imprevisível , q deus o tenha meus sentimentos aos amigos e família dele . Abs ... WP #53

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